FRATERNIDADE E ECOLOGIA INTEGRAL

Pe. Francidilso Silva – Mestre em Filosofia e Doutorando pela UFPI/UniTrento.

(Profº no Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí – ICESPI / Arquidiocese de Teresina-PI)

A Quaresma é um grande tempo em que somos convocados a entrar no deserto com o Senhor; a exercitar a escuta da Palavra, pois o próprio nome deserto (MiDabar), em hebraico, significa “lugar da Palavra”. É nesse lugar que Deus instrui, corrige e mostra a sua misericórdia, libertando o seu povo por meio do êxodo. A Quaresma é, também liturgicamente, um tempo de preparação para a celebração da Páscoa do Senhor, no qual repetidamente escutaremos a apelo de Deus: convertei-vos!

A conversão acontece quando percebemos que não funciona mais, dentro de uma ótica cristã, o modo de vida que levamos, o comportamento que temos e a maneira como pensamos às realidades desse mundo. Por isso, a Quaresma é sempre um tempo de pensar o nosso modo de vida concreta, na realidade social, no tempo e no espaço, que nos encontramos enquanto pessoa, comunidade de fé e sociedade. Esse ano, o chamado é a fazermos um caminho decidido de conversão ecológica e a vivenciar a Ecologia Integral (CF 2025, n.5); um caminho de cuidado como a Casa Comum através da aprendizagem da língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o criado.

O tema da Ecologia é umas das questões mais tratadas ao longo dos 61 anos de CF’s, foram 8 as CF’s que trataram de alguma maneira essa temática. Mas por que tratar mais um ano dessa temática? A temática ambiental é urgente. Estamos vivendo um tempo decisivo para o nosso planeta, o nosso planeta em 10 anos, possivelmente, não suportará, estamos chegando a um colapso planetário, seja por causa das nossas ações individuais ou coletivas. E a pior notícia: não temos um planeta reserva. Por isso, é preciso urgentemente uma conversão de nossa parte. É urgente uma conversão ecológica: passar lógica extrativista, que contempla a Terra como um reservatório sem fim de recursos, de onde podemos retirar tudo aquilo que quisermos, como quisermos e quanto quisermos, a uma lógica do cuidado. (CF 2025, n.8).

Mas o que compreendemos como ecologia? A ecologia pode ser compreendida em três dimensões: enquanto ciência, quando nos ajuda a compreender como se relacionam todas as criaturas que habitam o planeta; enquanto pratica: quando reúne pessoas e grupos que se mobilizam em prol da preservação da vida no planeta; enquanto nova mentalidade (paradigma), quando nos leva a compreender que temos um lugar próprio nesse mundo, relacionado como outros seres. A ecologia integral apresentada por Papa Francisco significativamente a inter-relação dessas dimensões, não sendo compreendida apenas como a ecologia do verde, do cuidado com a natureza, e o combate a degradação. A Ecologia Integral é, também, o cuidado com a natureza, mas também como o meio ambiente, ou seja, com o ambiente em meio ao qual nós vivemos e nos relacionamos: da cidade, do trabalho, da família, da espiritualidade, enfim, o cuidado com todas as relações humanas e sociais que compõem a nossa vida nessa Casa Comum. (CF 2025, n.9), Ecologia deriva de “oikos”, que quer dizer casa. O desafio dessa quaresma: é cuidar da casa: da casa interior (espiritualidade), da casa em que habitamos (família), da casa em que passamos grande parte do tempo (trabalho, faculdade, escola, etc.), da casa em que nos relacionamos (cidade) etc. e da Casa Comum (o planeta Terra), nela tudo está interligado.

Celebramos a CF 2025, com um “aguilhão” de dor devido às várias rupturas com o criador que o nosso tempo vive, tais como: a extinção e vulnerabilidade de seres vivos; ambição humana de domínio das coisas criadas, atitude não autorizada pelo criador; o modelo de desenvolvimento capitalista, fundado no extrativismo predatório; a ação humana propulsionadora da industrialização causando o efeito estufa e a modificação do clima da Terra; o modelo econômico brasileiro de uma exploração predatória, originando desigualdades e violência no campo e nos centros urbanos. Todas essas situações desafiam a superação da crise devido a intensificação da crise ambiental a cada dia, a negação da crise climática por grupos ideológicos, a descrença nas pequenas ações pessoais e comunitárias, a proliferação de doenças e a prática de mineração ilegal, o paradigma tecnocrático, que aumenta para além da imaginação o poder do homem, politicas publicas que respondam os desafios da crise socioambiental, fragmentação entre o social e o ambiental, além do aumento do consumo e desperdício tem levado ao limite a capacidade planetária de produção e sustentação da vida.

Através de uma ecologia integral passamos de uma relação com o Criador e o criado de guardiões responsáveis pela Casa Comum. A Ecologia Integral conjuga duas visões bíblicas: a proclamativa, em que o homem é o centro da salvação, tudo o criado foi feito em vista o ser humano; a manifestativa é cosmocêntrica, na qual a relação do ser humano com a natureza e com Deus é profundamente integradora. Em Jesus essas duas dimensões são interligadas. Por isso, nossa atenção é manter esse equilíbrio entre a nossa condição de imago mundi (somos pó) e a nossa imago Dei (somos criaturas criados a imagem de Deus).

O resultado desse desequilíbrio entre essas duas dimensões inerentes a nossa condição criatural é o que foi chamado de pecado ecológico, que consiste no desrespeito ao Criador e a sua obra que é a Casa Comum. São ações ou omissões contra Deus, contra o próximo e contra o meio ambiente (CF 2025, n.52). Esse pecado está dentro da dimensão social do pecado que aponta o Catecismo da Igreja Católica (CIgC, n. 1869; 1888 e 1896). É um chamado a um elemento que aparece com força, nessa CF 2025, a Conversão Ecológica.

Uma conversão ecológica supõe uma mudança do nosso modo de ser, pensar e agir, como pessoas e comunidade. Buscamos um modo de viver mais integrativo entre Deus, os seres humanos e toda a criação, no qual a cultura do amor e da paz tenha a primazia (CF 2025, n.56). Para que a conversão ecológica se realize, é necessário reconhecer que não temos correspondido à nossa vocação de guardiões da Casa Comum, missão colocada em nossas mãos por Deus Criador, nem tampouco à amizade e fraternidade comuns deixadas por Jesus Cristo. Ou seja, a contrição, reconhecer nossos pecados e pedir perdão a Deus e aos outros, que é tão acentuada na Quaresma. (CF 2025, n.57). A conversão ecológica inclui a revisão de nossas relações com os animais, a preservação de suas moradas, a redução de produtos industrializados e do consumo excessivo de carne. Essa conversão ecológica deve ser profética, principalmente, no que se refere a mudanças estruturais no âmbito da política, da economia e da ética.

SIGLAS

CF 2025 – Campanha da Fraternidade 2025

CIgC – Catecismo da Igreja Católica

REFERÊNCIAS

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2025: Texto Base. Brasília: Edições CNBB, 2024.