Pe. Me. William Santos Vasconcelos
A abordagem sobre o tema “Feminicídio e violência simbólica: morte existencial e negação da alteridade da mulher na sociedade contemporânea” é procurar fazer leitura mais ampla do problema relacionado a morte de mulheres. Essa abordagem nos conduz a compreender o feminicídio não apenas como eliminação físico-biológica, mas como o ponto extremo de um processo prévio de anulação da importância, da grandeza, da dignidade e do papel da mulher como pessoa na sociedade.
Trata-se de um processo de desumanização sustentado por ideias, práticas de dominação, relações de poder masculinas, estruturas sociais e ideológicas que naturalizam a inferiorização da mulher. Nesse contexto, palavras, discursos, estereótipos, chavões e representações culturais passam a configurar formas de violência simbólica, pois contribuem para legitimar a subordinação feminina a uma ideia, a um pré-conceito sócioreligioso ou a uma pessoa – pai, marido, tutor – antes mesmo da violência física.
Dentro desse cenário social cotidiano, é necessário destacar o feminicídio como a culminância de uma trajetória de violências que se inicia no plano simbólico, tema assegurado teoricamente por Pierre Bourdieu. Essa violência aparece nas relações sociais, nas letras de músicas, nos meios de comunicação e em discursos que reduzem a mulher a objeto, função ou propriedade. Antes de ser atingida no corpo, a mulher é atingida em sua própria existência.
Esse processo pode ser compreendido como uma espécie de “morte existencial”, na medida em que, progressivamente, nega à mulher sua subjetividade, seus saberes, sentimentos, emoções e projetos de vida. Ao ser desautorizada em sua humanidade e coisificada em sua condição social, a mulher passa a ser tratada como descartável, o que revela a profundidade da violência simbólica que antecede e sustenta a violência feminicida.
O feminicídio existencial, como expressão da violência simbólica, não é uma reflexão nova ou exclusivamente contemporânea, mas uma problemática já presente desde o início da colonização brasileira. Autores como Ana María Bidegáin, Maria Luiza Marcílio, Letícia Ferreira da Silva, Maria Augusta de Castilho, Mary Del Priore, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, permitem-nos compreender o drama do feminicídio existencial na base histórica do povo brasileiro, realidade que, de forma sutil, muitas vezes não se pensa, não se vê e nem se fala.
O presente artigo tem o intuito de problematizar essa questão, propondo um repensar crítico que possibilite a redescoberta de novos horizontes acerca da grandeza, da magnitude e da importância da mulher.

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